Resumo
Dois referentes históricos se destacam na busca dos habitantes de Tadó — atual departamento de Chocó (Colômbia)— pela reafirmação de sua identidade cultural. Em primeiro lugar, o Rei Barule, que entre os anos de 1727 e 1729 liderou uma revolta de escravizados visando conseguir sua liberdade. Em segundo lugar, a vida de Agustina, uma mulher negra e escravizada, que levou a um juiz seu senhor Don Joaquín de la Flor no final do século XVIII. A narrativa de Agustina repousa na oralidade e nos trabalhos de Yessica Spicker, nos quais se propõe uma visão sobre a mulher negra. A documentação evidencia maus-tratos e castigos, incluindo violações e abortos forçados, que as mulheres escravizadas suportavam durante o período colonial. Naquela época, Tadó era um real de minas (arraial de mineração autorizado pela Coroa espanhola) que constituía o segundo povoado da província de Nóvita. Neste ensaio, proponho discutir que a falta de crítica, verificação ou confrontação das fontes orais com fontes documentais tem feito com que as narrativas sobre a escravizada Agustina de Tadó contribuam para perpetuar imaginários que não correspondem com a evidência empírica. Agustina, uma mulher negra, silenciada como muitas outras pela história, merece ser reivindicada, ressignificada e reposicionada na história nacional para nunca mais ser despojada de sua humanidade.
A violência permanece profundamente enraizada na sociedade atual. Sua continuidade chama e inspira a lutar pela igualdade e dignidade de todos os seres humanos, começando pela questão de gênero. Ainda há resquícios das mentalidades patriarcais, machistas e androcêntricas, segundo as quais as mulheres estamos situadas em uma condição de subalternas, oprimidas, submetidas, e consideradas menos capazes frente ao gênero masculino. Esse pensamento transcende aos espaços de representação acadêmica, social, política, econômica, cultural e muito profundamente na família.
O ano de 2014 foi determinante para mim. Nesse ano, comecei a sair da minha bolha, da minha carapaça e do meu esconderijo inconsciente de negação como mulher negra, no qual não entendia meu verdadeiro valor e muito menos meu lugar na sociedade. Enfrentava todo tipo de violências racistas e machistas, mas mantinha um silêncio complacente pelo desconhecimento da minha própria força. Descobri que essa força provém, não apesar de, mas precisamente da minha origem como descendente de africanas e africanos que superaram a viagem transatlântica e se reinventaram no “Novo Mundo”; das histórias das minhas antepassadas e antepassados, mas sobretudo da grandeza de cada contribuição que fizemos à humanidade. Começar a descobrir tudo isso sendo já uma mulher adulta foi como romper as correntes que me amarravam a estereótipos de sujeição, que me obrigavam a aguentar as ridicularizações, o racismo, o machismo, o patriarcado, o sexismo, a imposição de uma religião, mas, sobretudo, o androcentrismo.
Esta nova consciência me levou a examinar-me, descobrir-me e repensar-me como pessoa e como mulher negra. Nessa busca decidi tomar ações pontuais para reivindicar o valor, o papel e as contribuições das mulheres negras em todos os âmbitos. Escolhi revalorizar o grande legado de resistência que herdamos de numerosas mulheres do passado, o qual devemos continuar com responsabilidade para poder entregá-lo às gerações presentes e vindouras. Ver nessas mulheres históricas novos referentes ajudará a reconhecer-nos, a inspirar-nos e a entender o poder que há em cada uma de nós. As mulheres negras clamamos e exigimos uma mudança de representação em todas as narrativas. Nelas deve primar nossa condição como seres humanos, a que temos construído, assim como os homens, em uma sociedade que nos tem marginalizado. Por isso é necessária e urgente uma leitura diferente do passado, porque a que se tem feito até o presente continua causando muito dano a nós como mulheres negras, que levamos em nosso ser as marcas de um processo de desumanização, coisificação e sexualização.
Não devemos continuar naturalizando nem eternizando as atuais relações de poder e gênero. Elas foram construídas socialmente e estão fadadas a desaparecer para dar lugar a outras formas e maneiras de nos agenciarmos. Compartilho a ressignificação que realiza a autora Dora Barrancos sobre o termo “agência” em seu livro História mínima dos feminismos na América Latina (2020) para apresentar os coletivos femininos empenhados em transformar as condições de existência, em modificar a falta de reconhecimento e a subordinação social. Com este preâmbulo, passemos à nossa análise. Nossa história tem lugar em Tadó, um real de minas que constituía o segundo povoado da província de Nóvita, durante o Vice-Reino da Nova Granada (que compreendia os territórios da Colômbia, Equador, Panamá e Venezuela) e que hoje conhecemos como o atual departamento de Chocó. Essa região se caracterizou durante o período colonial por sua alta produção de ouro com mão de obra escravizada. Hoje em dia, os habitantes destacam dois de seus mais conhecidos referentes históricos: o Rei Barule, que nos anos 1727-1729 formou um movimento libertário junto aos escravizados Mateo Mina e Antonio Mina, e promoveu uma revolta contra seus senhores usando como lema “matar brancos é bom, assim o Chocó acabará”; e a vida de Agustina (mulher negra e escravizada), baseando-se na oralidade e em um trabalho escrito por Jessica Spicker em 1996 intitulado “Mulher escrava: demografia e família na Nova Granada 1750-1810”. O notável é que Agustina, sendo mulher negra em uma colônia e no contexto da escravização, representou um marco histórico por ter levado perante um juiz seu senhor Don Joaquín de la Flor e ter denunciado suas constantes violações, maus-tratos e castigos, além do fato de que ele lhe provocou um aborto.
A história de Agustina ganhou força com o trabalho junto à comunidade, o que inspirou muitas e muitos agentes culturais e lideranças a escrever sobre ela em suas páginas na internet, blogs, redes sociais, artigos e até livros. Esse foi o caso do escritor Fabio Teolindo Perea Hinestroza, que escreveu Fatos relevantes da etno-história do Chocó século XVII-XVIII, ao qual nos referiremos mais adiante.
Antes de entrar na análise do mito, é necessário contextualizar as circunstâncias da época e a vida de Agustina. Agustina foi comprada por don Joaquín de la Flor para os serviços e o cuidado da casa. Essa situação a colocou em condições de vulnerabilidade em um espaço reduzido onde o senhor pôde ter acesso físico e sexual a ela. É um fato: em épocas passadas — que ainda deixam sentir seus efeitos no presente —, aqueles que ostentaram o poder criaram condições jurídicas, econômicas, políticas e sociais para dominar e controlar as demais pessoas. A marginalização chegou ao extremo de desumanizar, coisificar e brutalizar as outras e os outros para manter suas condições de privilégio. Isso podemos observar no caso do escravizador Joaquín de la Flor e da escravizada Agustina. O caso de Agustina não foi incomum, mas sim a norma para milhares e talvez milhões de mulheres que durante mais de 400 anos viveram na América em condições de escravidão. Don Joaquín de la Flor representa centenas de senhores que tiveram o controle na sociedade escravista e que na sociedade atual ainda têm o controle e o poder para infligir todo tipo de castigo contra os dominados e/ou subalternos.
No Arquivo Geral da Nação da Colômbia, Bogotá, encontra-se o “Julgamento Contra Don Joaquín de la Flor”1. Esse documento me permitiu reconhecer que foi realizado um julgamento contra o escravizador por maus-tratos e violações à sua escravizada, em 1795 em Tadó. A estrutura de dominação colonial revitimizou física e juridicamente a mulher negra escravizada na defesa do homem branco, que temia perder seu “bom nome e honra”. Ao ler o caso também notei a impossibilidade das relações amorosas interétnicas devido às barreiras sociais e religiosas. Pude observar claramente a diferença entre correção e castigo, este último aplicado com premeditação, sevícia e crueldade. Como consequência ocorreu o aborto do feto que Agustina levava em seu ventre. Também é evidente a cumplicidade das autoridades eclesiásticas, pois o padre José Ignacio Varela manteve silêncio diante do concubinato e não amparou Agustina, que lhe solicitou ajuda em duas ocasiões. Pelo contrário, o padre Varela decidiu manter silêncio. Somente depois de muitas insistências de Agustina suplicando seu auxílio, o padre informou por escrito ao corregedor Manuel Sanclemente e ao governador José Michaely, que por sua vez nomeou como juiz comissionado don José Álvarez del Pino para que este iniciasse o julgamento em 1795. O arquivo revela o comportamento desumano do senhor por esconder a mácula que significava ter filhos com as escravizadas e a crueldade à qual seria capaz de chegar para não ser submetido ao escárnio público. É clara a impunidade tramada entre aqueles que ostentavam o poder para beneficiar quem perpetuava essas violações nos corpos das mulheres negras e a constante coerção sobre as consequências exemplares que sofreriam aqueles que se atrevessem a denunciar. No caso de Agustina, além de perder o processo judicial, don Joaquín de la Flor decidiu vendê-la a uma mulher escravizadora chamada Maria Manuela Murillo, que usou seus serviços para o cuidado de sua casa e a criação de seus filhos.
Agustina fisicamente nunca se tornou fugitiva, ou seja, não fugiu do jugo de seu senhor para empreender uma vida como livre, sozinha ou com outras e outros escravizados. Seus comportamentos refletem um pouco de submissão. Isso pôde ser identificado porque suas formas de buscar justiça sempre recorreram ao amparo daqueles que tinham poder e que mantinham a seu cargo pessoas escravizadas. Ela não incentivou, nem iniciou uma revolta, e seu comportamento nunca foi revoltoso. Não sabemos o que aconteceu com ela depois, pois desconhecemos os fatos de sua morte e não sabemos como, quando nem onde ocorreu.

Escultura realizada no ano de 2009, Município de Tadó, Parque Central. Fotografia de Maria Fernanda Parra Ramírez

Representação da cimarrona Agustina. Fonte: Fabio Teolindo Perea Hinestroza, Hechos relevantes de la etnohistoria del Chocó siglo XVII- XVIII, 98. Foto de María Fernanda Parra Ramírez

Mural. Município de Tadó, Chocó. Foto de María Fernanda Parra Ramírez
A falta de crítica, verificação ou confrontação das fontes orais com fontes documentais tem feito com que as narrativas literárias e artísticas sobre a escravizada Agustina de Tadó contribuam para perpetuar imaginários que não correspondem à sua história segundo o que revela o arquivo.
| O MITO | O ARQUIVO |
Cimarrona – Sedutora, seduzida. Oralidade sobre a sexualização de seu corpo. | Escravizada e coagida, violada e maltratada. Sexualidade violentada em seu corpo. |
Vias de fato diretas e pessoais com as quais causou danos a seu senhor: _A desonra ao levá-lo perante um juiz _A fuga e incêndio - perda sobre os bens do senhor. | Vias de direito, acionar ou instar perante os órgãos da justiça para o reconhecimento de um direito: Poder eclesiástico - Recorre ao padre Ignacio Varela solicitando seu amparo e que a ajude a se livrar das crueldades de seu senhor. |
A imagem número 1 corresponde a uma escultura realizada no ano de 2009. O projeto fez parte da iniciativa da população tadoseña para erguer dois monumentos, um em nome de Barule e outro de Agustina, ambos como símbolos das lutas libertárias que se gestaram em Tadó. Esses monumentos, que ainda estão localizados no parque central de Tadó, são paradas obrigatória para quem visita o município. Com esse monumento a história oral tem ganhado força e tem reafirmado muito o comportamento rebelde de sua população que, apesar de não conservar as tradições e costumes de um palenque, busca reafirmar sua identidade como terra de cimarronas e cimarrones.
A imagem número 2 corresponde a um esboço para a realização de uma escultura em bronze (não materializada) para o ano de 2022. Como parte de um projeto de afirmação de identidade no município de Tadó, o escritor Fabio Teolindo Perea Hinestroza a retrata na página 98 de seu livro intitulado Fatos relevantes da etno-história do Chocó século XVII-XVIII. Em sua tentativa de contribuir para esses imaginários, Perea Hinestroza cria um projeto escultórico pós-modernista no qual a imagem de Agustina aparece ao estilo de uma ninfa grega em movimento, que com sua mão direita empunha o fogo aterrador que recorda à gente branca a destruição que este pode lhe causar e que, segundo o mito, ela utilizou para incendiar algumas moradias do município. Além disso, com sua mão esquerda, aponta para o futuro de liberdade, para onde deveriam avançar as mulheres negras e todas as pessoas escravizadas, mas sobretudo a sociedade tadoseña.
A imagem número 3 corresponde a um mural com o qual se pretende validar que Tadó foi e é terra de cimarronas e cimarrones. Além disso, que suas mulheres são rebeldes pelas influências deixadas pela escravizada Agustina. O mural faz parte de um projeto com o qual líderes e lideranças de Tadó buscam transmitir esse discurso a moradores e estranhos que visitem o município. No entanto, o legado da colonialidade fica evidente em cada traço deste mural. Vê-se Agustina como uma mulher hiper-sexualizada, cimarrona, libertária e guerreira. Essa imagem projetada reafirma a intenção de que outras mulheres negras a reconheçam como uma referência nas lutas e resistências.
O estudo desse caso é importante na medida em que nos permite conhecer a outra parte da história, e nos ajuda na descolonização do ser e do saber. Dessa maneira, busca-se dar a Agustina o verdadeiro lugar que lhe corresponde na história. É importante ressaltar que Agustina, embora não tenha sido uma cimarrona que empreendeu uma fuga física do lugar onde se encontrava escravizada, ou seja, que não realizou a ação de cimarronagem (fuga) e que tampouco se levantou contra seu senhor de maneira direta, Agustina, sim, buscou ajuda em repetidas ocasiões, sem recebê-la, apesar das evidências sobre múltiplos abusos, maus-tratos, opressões e violações às quais estava submetida em sua condição de desumanizada, de coisificada, de objeto, ou de corpo sem valor. Mas Agustina, essa mulher negra, e muitas outras silenciadas pela história, merecem ser reivindicadas, ressignificadas e reposicionadas na história para nunca mais serem despojadas de sua humanidade.
Por isso, a partir deste escrito, proclamamos Agustina, a escravizada de Tadó-Chocó, como símbolo do Não à Violência contra as mulheres negras na Colômbia!
Bibliografía:
Barrancos, Dora. Historia mínima de los feminismos en América Latina. El Colegio de México, 2020.
Perea Hinestroza, Fabio Teolindo. Hechos relevantes de la etnohistoria del Chocó siglo XVII- XVIII. Diseño, diagramación e impresión: taller Artes y Letras SAS, 2022.
Spicker, Jessica, “Mujer esclava: Demografía y familia criolla en la Nueva Granada, 1750-1810.” Tesis de grado. Universidad de los Andes, 1996.
AGN, Fondo Negros y Esclavos, serie Cauca, tomo I, ff 671- 678. ↩︎
Citação
Parra Ramírez, María Fernanda. 2024. 'Examinando o mito sobre a escravizada Agustina: Tadó-Chocó 1795'. Despossessões nas Américas. https://dia.upenn.edu/pt/content/ParraRamirezM001/

