Resumo
Mapas mais precisos da geografia da Guiana Francesa foram produzidos depois que os franceses asseguraram seu domínio em Caiena. A influencia colonial se estendeu pela costa, desde a cidade de Caiena até o rio Maroni. Entre as representações mais notáveis do território, está a do cartógrafo Jean-Baptiste D’Anville (1697-1782), elaborada em 1729.
O trabalho de D’anville contribuiu notoriamente para a renovação da geografia e da cartografia europeia. Seu sucesso se deu principalmente à triangulação de fontes, em contraste com testemunhos de primeira mão e ao uso de observações astronômicas.
D’Anville desenvolveu seu trabalho imerso em redes sólidas de mecenato e de colaboração científica. Ele trabalhou para tecer uma sólida correspondência na República das Letras e colaborou com revistas e periódicos para aumentar a visibilidade de seus estudos. 1
O mapa de 1729 inclui a descrição de numerosos povos indígenas, o que permite rastrear sua localização e movimento dentro dos territórios. Destacam-se os deslocamentos desde a costa atlântica até as terras interioranas. 2 D’Anville incluiu informações sobre a maioria dos povos indígenas previamente documentados por viajantes e cartógrafos, tais como os Acoquas, Aravacas, Armaboutous, Arouas, Coussaris, Galibis, Maïez, Mercioux, Nouragues, Palicours, Pirious, Supayes, Tocoïeunes, Tounoïennes e Yayos. Além deles, D’Anville incluiu três novas denominações: Aramisas, Caranes e Ouayes. Também houve alguns novos identificadores, como os “Mérillons” (ou Émérillons), modo como os exploradores franceses nomearam o povo Teko até o fim do século XX. O mesmo é válido para os “Oyanpiques” (ou Oyampis), hoje conhecidos como Wayāpi. O mapa de D’Anville teve várias reproduções, tanto impressas como manuscritas. 3
D’Anville não só apresentou novos nomes para os povos indígenas como também incluiu descrições e comentários. Por exemplo, o mapa coloca observações sobre a fisionomia dos indígenas Armaboutous (hoje identificados como Titiyó) que, segundo o autor, costumavam ter “longas orelhas penduradas sobre os ombros e vários furos na cara”. 4 No mapa, D’Anville também localiza a “última morada dos Nourages” ou descreve os Mayes como “aqueles que vivem nas árvores da savana inundada pelo mar”. Esses fragmentos permitem traçar o movimento e a localização dos habitantes da Guiana. Além disso, o mapa contém comentários sobre a relação entre os povos indígenas e os colonizadores. Por exemplo, D’Anville assinala que os Tounoennes (Wayana) e os Galibis (Kali’na) têm “reputação de selvagens”; ou que os Palicours (Paykweneh) são “amigos dos franceses”.
D’Anville impulsionou uma renovação na prática cartográfica e de representação da Terra. Entretanto, é necessário ressaltar que esses mapas foram realizados por alguém que nunca saiu da Europa, dessa forma, o mapa de 1729 inclui uma cláusula em que o autor reconhece que a maior parte da informação resultou da exploração dos jesuítas em 1674. O renome e a notoriedade permitiu o acesso de pessoas como D’Anville a materiais fundamentais para seus trabalhos. Essa situação não implicou em uma reprodução textual da informação, mas sim a utilização dos conhecimentos para entrelaçar as fontes de maneira crítica. 5 Dessa maneira, cartógrafos como D’Anville receberam relatos do território, que contrastaram com outros mapas e avaliaram com base em observações astronômicas.6 É importante sinalizar que D’Anville publicou ensaios sobre o processo de elaboração de seus mapas, nos quais se destacam sua rejeição a informações duvidosas. 7
Referência do mapa:
Jean-Baptiste D’Anville. Carte de la Guïane françoise ou du gouvernement de Caïenne depuis le Cap de Nord jusqu’àla rivière de Maroni inclusivement, Map 40 x 49 cm. S.l., 1729. Bibliothèque National de France – Gallica. Acesso em : 12 de agosto de 2023. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b85967714
Lucile Haguet, « Un discours de légitimation du géographe et de la géographie par la renommée et la célébrité : l’exemple de Jean-Baptiste d’Anville (1697-1782), » Revue de géographie historique 17-18 (2020), parágrafo 2, 36-44. ↩︎
O mapa localiza os seguintes grupos indígenas: Acoquas; Aramisas; Aravacas; Armaboutous; Arouas; Caranes; Coussaris; Galibis; Maïez; Mercioux; Mérillons; Nouragues; Palicours; Pirious; Ouayes; Oyanpiques; Supayes; Tocoïeunes; Tounoïennes; Yayos. ↩︎
Cada versão insere diferenças sutis, por exemple, no FGU0023, tem menos informação sobre as comunidades indígenas, o que sugere um propósito diferente para o mapa. ↩︎
Essa nação tem varias denominações nos mapas, incluindo Aramagotos, Aramacotos, or Kirikiricotos. ↩︎
Jorge Pimentel Cintra, Júnia Ferreira Furtado, “A Carte de l’Amérique Méridionale de Bourguignon D’Anville: eixo perspectivo de uma cartografia amazônica comparada*,*” Revista Brasileira de História 31, no. 62 (Dezembro 2011): 274-277, 284-286. ↩︎
Haguet, “Un discours de legitimation,” párrafo 5; Pimentel Cintra, Ferreira Furtado, “A Carte de l’Amérique Méridionale,” 295-300. ↩︎
Lucile Haguet, “Specifying Ignorance in Eighteenth-Century Cartography, a Powerful Way to Promote the Geographer’s Work: The Example of Jean-Baptiste d’Anville,” en The Dark Side of Knowledge: Histories of Ignorance, 1400 to 1800 edited by Cornel Zwierlein (Leiden: Brill, 2016). 373. ↩︎
Citação
Ardila Gutiérrez, Javier Ricardo. 2024. 'Mapa do Governo da Guiana Francesa ou Caiena, desde o Cabo Norte até o rio Maroni'. Despossessões nas Américas. https://dia.upenn.edu/pt/content/FGU0044Y/

