Resumo
Em 1874, o Departamento de Segurança da França encarregou ao geógrafo e cartógrafo Victor Adolphe Malte-Brun (1816-1889) a elaboração de um mapa que representasse os estabelecimentos penitenciários na Guiana Francesa. Além de mostrar a localização precisa dessas instituições carcerárias junto as margens dos rios e das ilhas, Malte-Brun assinalou que os territórios abaixo da costa eram “[e]xtensas selvas virgens em que perambulavam os indígenas Émérillon.”
O projeto de migração europeia para estabelecer uma colônia junto ao rio Kourou e aumentar a população da Guiana Francesa entre 1764 e 1765 fracassou totalmente. Além dos elevados custos econômicos, o plano deixou como resultado a morte de mais de 7.000 homens, mulheres e crianças. A catástrofe não só impediu a realização de novos projetos de migração para a Guiana, como também manteve os modestos benefícios que a colônia oferecia ao Império Francês.
No entanto, depois da catástrofe de Kouurou, o governo francês deu um novo propósito à colônia. Desde 1795, o Diretório revolucionário iniciou a deportação de convictos políticos para a Guiana. 1 Assim, a que anteriormente era chamada de terra do El Dourado, se converteu em l’infer vert (o inferno verde): o destino indesejado para os dissidentes do regime político. 2
Entre 1852 e 1854, o rei Napoleão III sancionou as normativas para estabelecer oficialmente a Guiana Francesa como ponto de deportação para prisioneiros e exilados de todo o Império. 3 A partir de então, e até 1953, a administração colonial fortaleceu uma rede de bagnes (lugares de trabalho forçado) em toda a colônia. O propósito era utilizar a mão de obra dos prisioneiros para explorar o solo guianês. Algumas penitenciárias se converteram em plantações rentáveis de café, tabaco e açúcar. 4 Um objetivo paralelo ao trabalho forçado era expandir o controle colonial na região, particularmente nos territórios considerados “virgens” ou “selvagens”. Os prisioneiros construíram sedes administrativas e infraestrutura civil, entre as quais se destaca uma rede básica de estradas. Contudo, recentes investigações concluem que, dado os altos índices de mortalidade derivados das condições sanitárias precárias e das rígidas dinâmicas de trabalho, o principal propósito dos bagnes poderia ter sido a eliminação de pessoas consideradas indesejáveis pelo Império Francês, em outras palavras, uma estratégia silenciosa de “higiene social” . 5
O mapa de Malte-Brun permite a recuperação de uma narrativa paralela. A falta de informação sobre os povos indígenas levou o cartógrafo a reduzir todos ao nome de Émérillon (hoje Teko) e localizá-los em uma área indeterminada. A generalização pode ser atribuída ao desconhecimento da distribuição e localização reais da população nativa. Somente a moradia dos Rorouies (Wayana) aparece clara e distinta no mapa. Apesar de seu silêncio, o mapa também capturou informações sobre algumas práticas dos povos locais. Por exemplo, ele retrata um caminho que unia Kourou com as aldeias do rio Maroni, junto ao que se diz: “rota frequentemente utilizada por índios.” Nesse sentido, apesar do objetivo do cartógrafo ser de representar a Guiana Francesa como um domínio imperial, sua concentração na região costeira e representação do interior como um espaço quase desabitado confirmam que uma parte considerável da terra e da população guianesa permaneceu independente do controle francês.
Referência do mapa:
Victor-Adolphe Malte-Brun. Carte de la Guyane française indiquant les établissements pénitentiaires. Mapa, 48 x 34 cm. París, 1874. Bibliothèque Nationale de France – Gallica. Acesso em: 12 de agosto de 2023. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8490883k
Serge Mam-Lam-Fouck y Apollinaire Anakesa-Kululuka, Nouvelle histoire de la Guyane Française: des souverainetés amérindiennes aux mutations de la société (Matoury, Guayana: Ibis rouge, 2013), 41. ↩︎
Pluchon y Abénon, Histoire des antilles et de la Guyane (Toulouse: Privat, 1982), 324. ↩︎
Olivier Puaux, Michel Philippe y Régis Picavet, “Introdution,” Archéologie et histoire du Sinnamary du xviie au xxe s. (Guyane), (París: Éditions de la Maison des sciences de l’homme, 1997). ↩︎
Denis Lamaison, “« Le bagne de la mort ». Culture du café et situation sanitaire au pénitencier agricole de la Montagne d’Argent (Guyane française) de 1852 à 1910,” Outre-Mers, vol. 390-391, 1 (2016): pp. 291-320. ↩︎
Pierre Morlanne-Fendan, Margot Battesti, Xavier Deparis y Marc Tanti, “État sanitaire des condamnés à l’époque du bagne de Guyane,” Histoire de Sciences Medicales, tome XLVII, n° 2 (2013): 186. ↩︎
Citação
Ardila Gutiérrez, Javier Ricardo. 2024. 'Mapa da Guiana Francesa que mostra os estabelecimentos penitenciários'. Despossessões nas Américas. https://dia.upenn.edu/pt/content/FGU0036Y/
