Resumo
Neste mapa, o geógrafo francês Pierre Du Val (1618-1683) representa a região da Guiana em 1664, justo o momento em que a França lutava para consolidar seu domínio sobre a área. Du Val seguiu de perto o mapa de Joost de Hondt, que por sua vez foi elaborado com base nas memórias de viagem de Walter Raleigh para a Guiana. No entanto, diferente de Hondt, Du Val se concentrou na região costeira.
Durante o reinado de Luis XIV (1643-1715), sob a influencia política do Cardeal Richelieu e do ministro Jean-Baptiste Colbert (1619-1670), o território da Guiana recebeu atenção renovada por parte dos franceses, que ainda reproduziam o imaginário da Guiana como um paraíso na terra. 1 Embora a fundação da primeira colônia fosse próxima ao rio Sinnamary em 1626, e na cidade de Caiena em 1643, o controle sobre a região era bastante precário. 2 Nas décadas seguintes os ingleses e os holandeses disputaram as regiões costeiras e os rios. Os holandeses ocuparam Caiena entre 1657 e 1665, e os ingleses entre 1666 e 1667. Somente em 1676, e depois de uma nova ocupação holandesa entre 1674 a 1677 é que os franceses se assentaram definitivamente em Caiena.3
Desde 1663, o ministro Colbert apoiou o estabelecimento da Compagnie de la France Equinoctiale sob o comando do general Alexandre de Prouville de Tracy (1603-1670) e de Joseph-Antoine Lefebvre de La Barre (1622-1688). O objetivo principal dessa missão era assegurar o controle sobre Caiena e sua área de influência. A expedição se iniciou em fevereiro de 1664, mesmo ano em que Du Val realizou o mapa.4
O mapa de Du Val reúne numerosas menções às comunidades indígenas que habitavam o território. Esses nomes tiveram longa tradição nas representações gráficas e textuais da Guiana.5 Entre eles aparecem os Galibis (hoje Kali’na), os Palicour (hoje Pahikweneh), os Toneyens (hoje Wayana) e os Supayes (hoje Lokono).6 Uma descrição dos Nolagues ou Noragues (nação indígena que deu nome à reserva natural que atualmente se encontra no alto do rio Approuague) destaca que seus membros “leva[va]m placas de ouro nas orelhas”. E isso não era raro, o imaginário aurífero é abundante no mapa. Du Val caracterizou a Guiana como “o reino do Rei Dourado”, tal como se lê em seu comentário sobre o lago Parima. Esses breves comentários são indicativos da persistência do mito do El Dorado entre os colonizadores europeus.
O mapa de Du Val inclui uma aproximação à ilha de Caiena. Como um ponto nevrálgico na luta colonial, os conhecimentos a respeito da geografia e da população eram cruciais para qualquer potência colonial que buscava assegurar seu domínio sobre a ilha. É notável como esse mapa representa uma Caiena anterior ao controle europeu absoluto. Nele, o autor indica que, até a data, a ilha estava principalmente povoada por caberts, a designação habitual das moradias indígenas na Guiana. A partir de 1664, os franceses se estabeleceram permanentemente em Caiena, apesar dos conflitos posteriores com holandeses e britânicos. Parte desse sucesso foi resultado da assinatura dos tratados econômicos e de paz com as populações indígenas locais.7
Referência do mapa:
Pierre Du Val. Coste de Guayane autrement France Equinotical en La Terre-Ferme d’Amerique. Mapa, 46 x 33 cm. París, 1664. Colección de Mapas David Rumsey. Acesso em: 4 de julho de 2023.
Pierre Pluchon e Lucien-René Abénon, Histoire des Antilles et de la Guyane (Toulouse: Privat, 1982), 95-96. ↩︎
Pluchon y Abénon, Histoire des Antilles et de la Guyane, 36. ↩︎
Serge Mam-Lam-Fouck y Apollinaire Anakesa-Kululuka, Nouvelle histoire de la Guyane Française: Des souverainetés amérindiennes aux mutations de la société (Matoury, Guayane: Ibis rouge, 2013), 31. ↩︎
William Jennings, “La prise de Cayenne en 1664 : une nouvelle perspective.” Bulletin de la Société d’Histoire de la Guadeloupe, 183 (2019): 2. https://doi.org/10.7202/1064934ar ↩︎
O mapa representa os seguintes povos indígenas: Acoulis, Arawagotes, Arouagues, Arowagues, Cauipagotes, Ciparicotes, Galibis, Hyayes, Muchikeriens, Nolaques, Palicour, Paragotes, Racalets, Sapayes, Toneyens y Vaccewayes. ↩︎
Martijn Marijn van den Bel, “Archaeological investigations between Cayenne Island and the Maroni river: a cultural sequence of western coastal French Guiana from 5000 BP to present Issue Date.” PhD diss., (Universiteit Leiden, 2015), 647-652. ↩︎
Jennings, “La prise de Cayenne en 1664,” 12-13; Mam-Lam-Fouck and Anakesa-Kululuka, Nouvelle histoire de la Guyane Française, 31. ↩︎
Citação
Ardila Gutiérrez, Javier Ricardo. 2024. 'A costa da Guiana, também conhecida como França Equatorial em Terra Firme da América'. Despossessões nas Américas. https://dia.upenn.edu/pt/content/FGU0025Y/


