Resumo
Este documento representa a Guiana, segundo os comentários e notícias recuperados por Walter Raleigh (1553-1618) durante sua expedição pela região, de 1594 a 1595, e publicados como memórias em 1596. O gravador neerlandês Joost de Hondt (1563-1612) tomou os dados proporcionados por Raleigh para elaborar este mapa, impresso em 1598.
A publicação deste mapa em Amsterdã não é fortuita. Naquele momento, os Países Baixos, em meio da guerra pela independência do império espanhol, estavam muito interessados na região da Guiana.1 Se desde os alvores do século XVI, espanhóis e portugueses se estabeleceram nas áreas densamente povoadas das Américas, eles postergaram seu assentamento na Guiana. Três razões explicam a demora e a hesitação: primeiro, o domínio do povo Caribe na região e sua oposição aos colonizadores. Segundo, a dificuldade para impor um sistema de tributação e controle sobre os grupos indígenas nômades ou seminômades. Terceiro, as difíceis condições da selva tropical sul-americana.
Ora bem, as Américas experimentaram uma segunda onda de colonização em finais do século XVI. Exploradores britânicos, neerlandeses e franceses buscaram estabelecer assentamentos coloniais em territórios “não reclamados”, como a Guiana. A ambição de possuir as riquezas da América conduziu as monarquias europeias a enviar expedições militares. A de Walter Raleigh se destaca entre elas: em 1584 ele recebeu a autorização da rainha Isabel para conquistar territórios em seu nome. Além de encarregar explorações na América do Norte em 1584 e 1587, ele viajou e comandou duas missões na região da Guiana, em 1595 e 1617. Raleigh publicou as memórias de sua primeira viagem em El Descubrimiento del gran, rico y hermoso Imperio de Guayana de 1596.2 No livro, Raleigh enfatizou a riqueza da Guiana e destacou a suposta existência de El Dorado.
O mapa de Hondt resume amplamente o relato de Raleigh e inclui uma representação do brasão da Guiana. Esta região geográfica e geológica compreende os atuais países de Suriname, Guiana britânica, Guiana francesa e partes do sudeste da Venezuela, norte do Brasil e leste da Colômbia. Assim, o mapa combina dados fictícios e reais. De um lado, em sintonia com a fixação de Raleigh com o mito de El Dorado, o mapa situa esta cidade fictícia à beira do —também imaginário— lago Parima. Além disso, descreve os costumes, recursos e acesso da suposta população, de acordo às memórias de Raleigh. O mapa também menciona histórias sobre homens sem cabeça e uma narração sobre o Reino das Amazonas.3
Por outro lado, independentemente desta construção fantástica, o mapa apresenta as condições humanas e naturais do território. Na narração, o explorador britânico incluiu relatos dos encontros que teve com os nativos e suas descrições sobre a localização de outras comunidades indígenas das quais hoje se tem informação fidedigna.4 As pesquisas arqueológicas confirmam que as pessoas no litoral atlântico eram principalmente das famílias linguísticas Caribe e Arawak, com grupos nômades e seminômades da família Tupi-guarani, no interior. O mapa também inclui imagens detalhadas da fauna americana, como tartarugas do rio Orinoco, tatus e recursos naturais de Cayena.5
O atrativo da narração de Raleigh e a representação cartográfica de Hondt deixaram profunda marca nos imaginários sobre a Guiana. Por exemplo, a representação do mítico lago Parima na América do Sul foi utilizado até o século XIX.6 Portanto, este mapa é uma referência a partir da qual muitos europeus imaginaram a Guiana e é um dos primeiros relatos sobre sua população.7
Legenda do mapa:
Jodocus Hondius. Nieuwe Caerte van het wonderbaer ende goudrijcke landt Guiana, gelegen onder de Linie Aequinoctiael tusschen Brasilien ende Péru. Mapa, 36,5 x 52 cm. Amsterdã, 1598. Bibliothèque Nationale de France - Gallica. Acessado no dia 1 de agosto de 2023. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b531217166
Marion F. Godfroy, Kourou and the Struggle for a French America (Houndmills, Basingstoke, Hampshire: Palgrave Macmillan, 2015), 44. ↩︎
Walter Raleigh, Discoverie of The Large, Rich, And Bevvtifvl Empire of Gviana, With A Relation of The Great And Golden Citie Of Manoa (Which The Spanyards Call El Dorado) (Londres: Imprinted at London by Robert Robinson. 1596). Há uma versão digitalizada em: *Early English Books Online Demo. *https://quod.lib.umich.edu/e/eebodemo/arz7311.0001.001. University of Michigan Library Digital Collections. Consultado no dia 7 de julho de 2024. ↩︎
Na descrição que aparece embaixo da imagem do rio Esequibo se lê: “Os grupos/as nações circundantes a este rio viajam durante vários dias, começando por um trajeto de um dia, a partir da desembocadura do mesmo rio até o grande lago Parima. Dali, primeiro trazem sobre os ombros os produtos trazidos de longe até o lago. Depois, viajam com suas canoas e levam os produtos trazidos de longe de novo até o lago Salado para comerciar. Frequentemente, os espanhóis não avançam além do rio Esequibo”. (Agradeço ao historiador Miguel Durango por sua ajuda na tradução deste fragmento) ↩︎
Pluchon y Abénon, Histoire Des Antilles Et De La Guyane, 36-37; Serge Mam-Lam-Fouck and Apollinaire Anakesa-Kululuka, Nouvelle Histoire De La Guyane Française: Des Souverainetés Amérindiennes Aux Mutations De La Société (Matoury, Guiana francesa: Ibis rouge, 2013), 28. ↩︎
No segundo parágrafo embaixo da representação do rio Oyapoco se lê: “Cayena é um rio aberto e muito adequado para entrar com numerosos barcos. Sua desembocadura mede mais que uma milha germana. Há três rochas na entrada, entre as quais passa a correnteza. As nações vizinhas são muito ricas em provisões e boas para o comércio. Acredita-se, sem dúvida, que por meio deste rio é possível ter acesso ao grande lago e à cidade de Manoa, que é muito rica em madeira”. (Agradeço ao historiador Miguel Durango por sua ajuda na tradução deste fragmento) ↩︎
Ver, por exemplo: CNT0010, CNT0018, CNT0061, CNT0062, CNT0063, CNT0066, CNY0074, VEN0052, VEN0056, VEN0058, VEN0068, VEN0099. ↩︎
Godfroy, Kourou, 41. ↩︎
Citação
Ardila Gutiérrez, Javier Ricardo. 2024. 'Novo mapa da maravilhosa, grande e rica terra da Guiana.'. Despossessões nas Américas. https://dia.upenn.edu/pt/content/CNT0183Y/













